Há políticos que, ao perder uma eleição, fazem um discurso de reconhecimento da derrota e prometem fiscalizar o novo governo. Outros preferem uma alternativa mais confortável: em vez de mudar de opinião, mudam de país. Flávio Bolsonaro optou pelas duas atitudes.
A democracia, afinal, tem dessas inconveniências. Há eleitores, esses ingratos, que insistem em não compreender a grandeza do candidato. Depois de semanas a ouvir suas promessas, contemplar suas imagens e suportar suas certezas, resolvem votar em outro. É uma ofensa pessoal que, para certos líderes, só pode ser reparada com a fuga.
Na manhã de 1º de abril de 1964, com a entrada das tropas golpistas no Estado do Rio, Jango voou pela FAB com destino a Brasília. Na capital federal, ao constatar que corria risco de prisão, viajou a Porto Alegre para se juntar à resistência de Leonel Brizola. Ao discordar do enfrentamento armado, seguiu para sua fazenda, em São Borja (RS), cidade natal. E no dia 4 de abril decolou, em um pequeno avião, rumo a Montevideo, onde se exilou. Só retornou ao Brasil doze anos depois. Já sem vida.
O século XX oferece um catálogo de governantes e pretendentes ao poder que, diante da derrota ou da queda iminente, descobriram as virtudes do exílio. Alguns fugiram depois de perder eleições; outros, após perder o controle do Estado, em golpes, revoluções ou guerras. Convém distinguir as situações, embora todas revelem como o poder, quando deixa de ser propriedade particular, pode se tornar um lugar bastante desconfortável.
Em 1940, Manuel Azaña, presidente da Segunda República espanhola, já se encontrava no exílio francês após a vitória das tropas de Franco na Guerra Civil. Não fugira de uma eleição perdida, mas da derrota militar de uma República que não conseguiu sobreviver ao fascismo. Sua trajetória recorda que o exílio nem sempre é a covardia de um indivíduo: pode ser a consequência trágica da destruição de um regime.
Outro caso foi o de Juan Domingo Perón, deposto por um golpe militar na Argentina em 1955. Partiu para um longo exílio, passou por diferentes países, até regressar em 1973 e voltar à Presidência. Não foi um candidato derrotado nas urnas, mas um presidente derrubado à força. Sua história mostra que, na política, a porta de saída pode também se transformar em porta de retorno.
Já Idi Amin, ditador de Uganda, deixou o país em 1979, depois de ser derrotado por forças ugandenses e tanzanianas. Terminou seus dias na Arábia Saudita, longe do país sobre o qual governara com brutalidade. Não precisou enfrentar as urnas para compreender que o poder, quando sustentado pelo medo, pode evaporar assim que o medo muda de endereço.
A história do Haiti também oferece o exemplo de Jean-Claude Duvalier, o Baby Doc, que deixou o país em 1986, depois de uma revolta popular contra sua ditadura. Não perdeu uma eleição presidencial, perdeu o regime que herdara do pai. O sobrenome, que lhe abrira as portas do palácio, não lhe garantiu a permanência nele.
E há os que, derrotados ou ameaçados de derrota, preferem transformar a viagem em estratégia política, como Flávio Bolsonaro. O avião passa a ser uma espécie de segunda cabine eleitoral, na qual não se contam votos, mas malas. A diferença é que, na urna, o cidadão escolhe quem o governará; no aeroporto, o governante escolhe para onde irá escapar.
É preciso lembrar, contudo, que nem todo político que deixa o país é fugitivo, assim como nem todo exílio é voluntário. Há opositores perseguidos por ditaduras, presidentes derrubados por golpes e dirigentes ameaçados de prisão sem garantias judiciais. Fugir para salvar a vida não é o mesmo que tentar escapar às consequências de atos praticados ao longo da carreira política, como o candidato derrotado no Brasil envolvido em uma sequência de maracutaias, que começam com as “rachadinhas” em seu gabinete de deputado estadual no Rio e culminam com os milhões de dólares recebidos do banqueiro Daniel Vorcaro para a produção de um filme sobre seu pai.
A distinção torna-se ainda mais importante quando um governante, depois de derrotado, denuncia fraude sem apresentar provas, desqualifica as instituições que organizaram a votação e procura convencer seus seguidores de que a vontade popular só é legítima quando coincide com a sua, como faz Trump. Nesse caso, a derrota eleitoral deixa de ser um resultado e passa a ser apresentada como uma conspiração.
O raciocínio é admirável em sua simplicidade: se eu ganhei, o povo é soberano; se perdi, o povo foi enganado. A democracia funciona perfeitamente enquanto confirma minhas convicções. Quando me contraria, está evidentemente contaminada por inimigos, comunistas, estrangeiros, jornalistas, juízes, urnas fraudadas ou qualquer outro suspeito disponível no mercado das desculpas. Se nada disso resolver, resta o passaporte.
O exílio pode ser uma tragédia para quem perde a liberdade por defender a democracia. Para quem pretendeu colocar-se acima dela, pode ser apenas mudança de endereço, acompanhada de entrevistas indignadas, declarações de inocência e fotos cuidadosamente escolhidas para as redes digitais.
Há, porém, uma diferença fundamental entre deixar o país e abandonar a responsabilidade. O primeiro ato pode ser necessário; o segundo não deveria ser permitido pela memória pública. Fronteiras atravessam-se de avião. A história, infelizmente para alguns, não oferece serviço de imigração.
A democracia não exige que um candidato derrotado se torne admirador do vencedor. Exige algo mais elementar como reconhecer o direito de os eleitores escolherem, respeitar as regras do jogo democrático e não tratar o país como sua mansão.
Afinal, quem disputa a Presidência pede um mandato, não uma escritura de propriedade. E quem perde uma eleição continua cidadão, embora deixe de ser chefe de Estado. O problema começa quando o candidato acredita que a nação lhe pertence e o eleitor cometeu uma insolência ao não elegê-lo. Nessa hora, a mala já está quase pronta, o discurso de vitimização foi ensaiado e o aeroporto parece mais acolhedor do que a praça pública. Só falta decidir se a fuga será apresentada como perseguição política, missão internacional ou retiro estratégico.
A democracia, essa senhora de hábitos teimosos, continuará a esperar o retorno do viajante. Não para lhe devolver o mandato de senador, mas para lhe recordar que, em uma República, o poder tem prazo de validade e a derrota eleitoral, ao contrário da dignidade, não deveria ser motivo de vergonha.
Frei Betto é escritor, autor de “Anatomia do Poder” (Vozes), entre outros livros.
