Nas eleições presidenciais de 2026, a comparação entre as chapas de Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro oferece curioso contraste. De um lado, Geraldo Alckmin, médico, professor universitário e político profissional com mais de cinco décadas de vida pública. De outro, Alfredo Gaspar, advogado, ex-promotor e ex-procurador-geral de Justiça de Alagoas, cuja carreira política começou há apenas seis anos.

Alckmin nasceu em Pindamonhangaba, São Paulo, em 1952. Formou-se em Medicina pela Faculdade de Medicina de Taubaté e especializou-se em anestesiologia. Ainda jovem, ingressou no MDB e, em 1972, aos 19 anos, foi eleito vereador de sua cidade. Depois, foi prefeito, deputado estadual, deputado federal e participou da Assembleia Nacional Constituinte que elaborou a Constituição de 1988.

Em 1988, ajudou a fundar o PSDB, partido pelo qual se tornou uma das principais lideranças nacionais. Foi vice-governador de São Paulo na chapa de Mário Covas e assumiu o governo paulista em 2001, após a morte de Covas. Eleito governador em 2002, voltou ao cargo em 2011 e foi reeleito em 2014. Disputou duas vezes a Presidência da República, em 2006 e 2018.

É uma trajetória típica da velha escola política brasileira: vereador, prefeito, deputado, vice-governador, governador, candidato presidencial, ministro e, finalmente, vice-presidente da República. Em 2021, porém, Alckmin deixou o PSDB, depois de mais de três décadas de filiação, e ingressou no PSB para formar, ao lado de Lula, a chapa vitoriosa de 2022.

O paradoxo histórico não passou despercebido. Alckmin havia sido adversário de Lula nas eleições de 2006. Quinze anos depois, os dois transformaram a antiga rivalidade em aliança política. A composição foi renovada para 2026.

Alfredo Gaspar percorreu caminho bastante diferente. Alagoano, formado em Direito, construiu durante 24 anos sua carreira no Ministério Público de Alagoas: foi promotor e procurador-geral de Justiça. Também ocupou cargos na área de segurança pública, tendo sido secretário de Defesa Social e secretário de Segurança Pública de seu estado.

Sua entrada na política eleitoral ocorreu em 2020, quando disputou a Prefeitura de Maceió pelo MDB e chegou ao segundo turno. Em 2022, já distante do grupo político dos Calheiros, foi eleito deputado federal. Aproximou-se do bolsonarismo, trocou o União Brasil pelo PL em 2026 e acabou escolhido por Flávio Bolsonaro para ser vice.

A escolha não foi casual. Gaspar oferece à chapa credenciais na área de segurança pública, bandeira central do bolsonarismo, além de representar politicamente o Nordeste, região na qual a família Bolsonaro historicamente enfrenta dificuldades eleitorais. Como deputado, ganhou projeção nacional também como relator da CPMI do INSS.

Há uma diferença de natureza entre os dois vices. Alckmin pertence à política institucional em seu sentido mais clássico. Conhece o Executivo por dentro, o Legislativo, os partidos, o federalismo e a administração pública. Governou o estado economicamente mais importante do país e participou da elaboração da Constituição. Sua experiência não se limita a uma bandeira ideológica, resulta de longa convivência com diferentes instituições e forças políticas.

Gaspar chega à chapa de Flávio Bolsonaro com outra credencial: experiências jurídica e policial. Sua imagem política está associada à defesa da segurança pública, ao combate ao crime e a uma postura mais próxima do conservadorismo que caracteriza o bolsonarismo. Sua experiência administrativa é relevante, mas sua trajetória eleitoral é muito curta.

Até mesmo a formação acadêmica ajuda a revelar a diferença. Alckmin é médico, profissão que exerceu antes de se dedicar integralmente à política. Gaspar é advogado e construiu sua carreira no Ministério Público. Um veio da medicina para a política; o outro, do Direito e da segurança pública.

Há ainda uma diferença simbólica. Alckmin é um político que atravessou diversas fases da democracia brasileira, desde a oposição à ditadura até a Nova República, a Constituinte, os governos estaduais e as disputas presidenciais. Gaspar pertence a uma geração política mais recente e sua ascensão nacional está diretamente ligada à onda bolsonarista.

Não se trata de afirmar que experiência torna automaticamente alguém melhor governante. Política não é concurso de currículo. Mas, quando se escolhe um vice-presidente, experiência administrativa, conhecimento institucional e capacidade de negociação podem pesar tanto quanto afinidade ideológica.

Nesse aspecto, Lula e Flávio Bolsonaro fizeram escolhas que refletem seus próprios projetos. Lula manteve ao seu lado um antigo adversário convertido em aliado, alguém capaz de dialogar com setores que não se identificam tradicionalmente com a esquerda. Flávio escolheu um político mais próximo da agenda de segurança e dos valores conservadores que constituem o núcleo duro de seu eleitorado. Dois vices, portanto, duas biografias e duas concepções de política.

Alckmin representa a longa estrada das instituições. Gaspar, a ascensão recente de uma direita que encontrou na segurança pública uma de suas principais bandeiras.

Uma das diferenças mais reveladoras entre as duas candidaturas é que Lula apresenta ao eleitorado a experiência acumulada de uma figura de destaque da política brasileira, enquanto Flávio Bolsonaro oferece a novidade relativa de um homem que trocou a toga pela urna e encontrou no bolsonarismo o caminho para Brasília.

No próximo dia 25, reconduza com seu voto Alckmin e Lula ao governo. Vote 13!

Frei Betto é autor de Anatomia do Poder (Vozes), entre outros livros.