Há relações políticas que começam com um pedido de patrocínio e terminam em investigação da Polícia Federal. A relação de Flávio Bolsonaro com Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master, pertence, até o momento, a esta categoria.

O caso ganhou dimensão nacional quando vieram a público mensagens e áudios que comprovam que Flávio Bolsonaro não era apenas um conhecido distante de Vorcaro. Era seu interlocutor direto na tentativa de obter dezenas de milhões de reais para financiar Dark Horse, filme sobre a vida de Jair Bolsonaro.

Flávio Bolsonaro confirmou que procurou Vorcaro. Sua explicação é que agiu como filho interessado em conseguir patrocínio privado para um filme sobre o próprio pai. Negou ter oferecido vantagens ao banqueiro, ter intermediado negócios com o governo ou recebido qualquer benefício pessoal. Também afirmou que o projeto não envolvia dinheiro público nem da Lei Rouanet.

O problema político não está, portanto, apenas na existência do patrocínio. Está na dimensão dos valores, na intimidade da interlocução e, sobretudo, no que os documentos da investigação revelaram posteriormente.

Segundo a Polícia Federal, Flávio Bolsonaro pediu a Vorcaro cerca de R$ 131 milhões para a produção de Dark Horse. Aproximadamente R$ 60 milhões teriam sido efetivamente pagos. Outros levantamentos publicados a partir dos documentos do inquérito apontam para uma negociação de pelo menos US$ 24 milhões, dos quais cerca de US$ 12,3 milhões teriam sido desembolsados.

Não se tratava, segundo as mensagens reveladas, de um contato protocolar. O candidato do PL cobrava os pagamentos. Em determinado momento, pediu que fosse dado “um gás” para destravar a operação. As mensagens mostram que ele acompanhava o andamento dos recursos e pressionava para que as parcelas fossem liberadas.

A própria reação de Vorcaro chama a atenção. Em janeiro de 2025, diante da cobrança relativa ao filme, o banqueiro teria determinado que o projeto passasse a ser prioridade. Segundo mensagens divulgadas, quando seu cunhado, Fabiano Zettel, informou que o filme não estava entre os desembolsos prioritários, Vorcaro respondeu que aquele era “o mais importante disparado”.

A Polícia Federal encontrou elementos indicando que Flávio Bolsonaro se encontrou pessoalmente com Vorcaro, trocou mensagens com ele e fez reiteradas cobranças sobre o financiamento. O relatório policial afirma que o senador não aparece simplesmente como alguém mencionado por terceiros, mas sim como interlocutor direto do banqueiro nas tratativas relacionadas ao filme.

Mais grave ainda é que a investigação passou a examinar o caminho percorrido pelo dinheiro. Documentos da PF indicam que parte dos recursos destinados ao filme passou por estruturas empresariais nos Estados Unidos. A investigação também examina se recursos relacionados ao projeto poderiam ter servido para custear despesas de Eduardo Bolsonaro, irmão de Flávio, que mora nos Estados Unidos. Uma mensagem atribuída a Eduardo trata justamente da necessidade de os recursos chegarem aos EUA e discute a maneira de fazer as remessas. Flávio e Eduardo negam irregularidades.

O episódio ganhou outra dimensão quando a Procuradoria-Geral da República solicitou o levantamento de propostas apresentadas ou apoiadas por Flávio Bolsonaro no Congresso que pudessem beneficiar Vorcaro, o Banco Master ou empresas ligadas ao grupo. Isso não significa que tenha sido comprovado que Flávio tenha atuado em favor do banco. Significa que a possibilidade passou a integrar o campo de investigação.

Essa distinção é essencial. Até aqui, os documentos públicos não autorizam afirmar que Flávio Bolsonaro tenha cometido corrupção ou recebido propina. O que existe é uma investigação que procura esclarecer a natureza da relação, a origem e o destino dos recursos e se houve alguma contrapartida política.

Há, contudo, uma contradição política difícil de ignorar. Flávio Bolsonaro se apresenta como alguém que apenas procurou um empresário para conseguir dinheiro para um filme. Mas o empresário em questão não era um anônimo endinheirado. Era Daniel Vorcaro, controlador de um banco que posteriormente se tornou centro de uma gigantesca investigação financeira e policial.

O Banco Master havia crescido rapidamente mediante operações agressivas e captação de recursos no mercado. Vorcaro tornou-se uma figura com extensa rede de relações políticas e empresariais. Quando a crise do banco veio à tona, essas relações passaram a ser escrutinadas pelas autoridades. Por isso, a pergunta não é simplesmente: “Flávio pediu dinheiro a Vorcaro?” Ele próprio já respondeu que sim.

As perguntas relevantes são outras: por que Vorcaro se dispôs a colocar dezenas de milhões de reais em um filme sobre Jair Bolsonaro? Qual a natureza do acordo? Quem decidiu os pagamentos? Para onde foi cada parcela? Quem se beneficiou direta ou indiretamente? E houve alguma contrapartida política?

É justamente para responder a essas perguntas que a investigação continua.

Flávio Bolsonaro tem razão em dizer que pedir patrocínio privado para uma produção cinematográfica não constitui, por si só, crime. Mas também é insuficiente dizer que se tratava apenas de um “filho procurando patrocínio”. Afinal, os documentos revelados pela investigação mostram uma relação muito mais intensa: negociação de valores milionários, cobranças diretas, acompanhamento dos pagamentos, encontros pessoais e intervenção do próprio Vorcaro para priorizar o filme.

O caso tornou-se particularmente incômodo para Flávio Bolsonaro porque sua candidatura presidencial pretende vender a imagem de ruptura com práticas políticas que ele e seus aliados atribuem aos adversários. Quando a Polícia Federal passa a investigar uma relação financeira envolvendo o candidato e o controlador de um banco sob investigação, a questão deixa de ser apenas jurídica. Torna-se também eleitoral.

E há uma ironia adicional. Flávio Bolsonaro tem procurado transformar o Banco Master em um problema dos adversários e defendido a investigação sobre o caso. Ao mesmo tempo, seu próprio nome aparece nos documentos da investigação por causa de sua interlocução com Vorcaro.

A revista Piauí informa que a extração feita pela Polícia Federal do celular de Vorcaro registrou 14 ligações entre ele e Flávio Bolsonaro, oito atendidas, além de 96 mensagens trocadas.

A relação começou a aparecer nos registros em dezembro de 2024. Em 11 de dezembro, estava prevista uma reunião na casa de Vorcaro, em Brasília, articulada por Thiago Miranda. Flávio Bolsonaro pretendia levar o deputado Mário Frias, apresentado como idealizador do filme sobre Jair Bolsonaro. O encontro acabou cercado de telefonemas e desencontros.

Em 16 de dezembro de 2024, Mário Frias escreveu a Vorcaro: “Fala irmão. Tô com senador aqui. Pode falar?!?” Vorcaro respondeu: “Opa. Sim.” Às 22h10 daquele mesmo dia foi registrada a primeira ligação diretamente entre Flávio Bolsonaro e Vorcaro. A duração e o conteúdo dessa conversa não foram divulgados.

Entre janeiro e agosto de 2025 as mensagens diretas entre os dois desapareceram do aparelho nesse período porque estava ativado o recurso de mensagens temporárias de 90 dias. A investigação, porém, encontrou conversas de Vorcaro com intermediários que mostram Flávio Bolsonaro cobrando os pagamentos do filme. Em 20 de janeiro, por exemplo, mensagem de Flávio foi encaminhada a Vorcaro pedindo “um gás” para destravar o primeiro pagamento.

Em agosto, Thiago Miranda escreveu a Vorcaro: “Eles não fizeram o pagamento das parcelas. Flavio me ligou hoje.” A planilha localizada pela PF indicava 14 parcelas previstas, das quais seis haviam sido pagas, totalizando cerca de US$ 10,67 milhões.

Em 20 de agosto de 2025 o contato direto reaparece. Vorcaro: “21 pode ser”. Flávio Bolsonaro: “Blz” Mais tarde, às 21h47, Flávio escreveu: “A caminho” Tudo indica que houve encontro presencial naquela noite.

Em 26 de agosto, Flávio Bolsonaro enviou um vídeo a Vorcaro e escreveu: “Não postar nem encaminhar. Já estão em São Paulo. Começou!!!” Era material das filmagens do longa, com Cyrus Nowrasteh, Mário Frias e parte da equipe.

Em 8 de setembro ocorreu a cobrança mais importante. Existe um áudio de Flávio Bolsonaro cujo conteúdo foi divulgado integralmente pela imprensa.

Flávio começa: “Irmão, preferi te mandar o áudio aqui para você ouvir com calma.” Explica que o filme atravessava um momento decisivo e havia muitas parcelas atrasadas. Diz que ficava constrangido de cobrar, mas todos estavam tensos. Então vem a cobrança: “Imagina a gente dando calote num Jim Caviezel, num Cyrus [Nowrasteh], os caras, pô, renomadíssimos lá no cinema americano, mundial.” Flávio prossegue dizendo que o atraso poderia comprometer todo o projeto: “Não pode não honrar com os compromissos aqui, porque senão a gente perde tudo.” E especifica: “Todo o contrato, perde ator, perde diretor, perde equipe, perde tudo.” Termina: “Podendo dar um toque aí, irmão. Desculpa o áudio longo aí, tá? Um abração, fica com Deus, cara.” Logo depois, escreve: “Preferi te mandar um áudio pra vc ouvir com calma aí, mermão! Abs!”

Vorcaro responde pedindo desculpas e afirma: “Eu vou resolver amanhã.” Naquela mesma noite, os dois tiveram uma ligação de 2 minutos e 38 segundos. O conteúdo dessa ligação não foi divulgado.

Em 16 de setembro de 2025 Vorcaro e Flávio Bolsonaro conversaram por telefone durante 42 segundos. No mesmo dia, saiu uma transferência de aproximadamente US$ 1,67 milhão para o fundo de investimento Havengate. Segundo a Piauí, as remessas identificadas chegaram a US$ 12,3 milhões.

Na semana seguinte, houve várias outras ligações entre os dois. Uma delas durou 1 minuto e 50 segundos. O conteúdo não foi divulgado.

Em 22 de outubro Flávio voltou a cobrar dinheiro para o filme: “Já estamos no terceiro dia de gravação.” E, em seguida: “Estamos no limite.” Depois: “Mais uma vez, com toda a liberdade que temos, se não der me fala que procuro urgente outro caminho.”

Vorcaro respondeu: “Deixa comigo irmão, vou ver agora.” O banqueiro então escreveu ao intermediário que havia liberado mais uma parcela e afirmou: “Apesar de qualquer tempestade vou até o fim com isso.”

Flávio, satisfeito, convidou Vorcaro para um jantar com Jim Caviezel e Cyrus Nowrasteh. Vorcaro ofereceu sua própria casa em São Paulo. Flávio respondeu: “Pode ser na sua casa, sim! Acho até melhor!”

Na mesma conversa, Vorcaro perguntou se Flávio iria a Dubai. Flávio respondeu que provavelmente seu irmão iria e ofereceu-se para fazer o contato.

Em 30 de outubro e início de novembro a parcela prometida não apareceu. Flávio Bolsonaro voltou a cobrar por intermédio de Thiago Miranda: “Vc não pode dar um toque no investidor pra saber o que houve que veio o contrato, mas não veio o depósito?”

Vorcaro respondeu: “Já foi. Não bateu lá?” Quando Miranda informou que só havia chegado o contrato, Vorcaro respondeu: “Que loucura”

Em 7 de novembro o candidato do PL enviou a Vorcaro um vídeo de visualização única e escreveu: “Tá perdendo, irmão! Tudo isso só está sendo possível por causa de você”. Vorcaro respondeu: “Que demais.” E: “Ficou perfeito.”

Em 13 de novembro, Flávio Bolsonaro escreveu: “Bom dia. Pode atender?” Vorcaro respondeu: “Fala irmão, te chamo em 30 min”

Não há registro de que a ligação tenha ocorrido. No dia 14, o candidato do PL tentou telefonar. A chamada não foi atendida. No dia 15, Vorcaro explicou: “Fala irmão. Tava em trânsito de voo.” Flávio: “Pode atender?” No dia 16, Flávio tentou novamente. Vorcaro respondeu: “Fala irmãozinho, to na igreja, terminando te chamo”

E então veio a mensagem que encerra o contato direto conhecido entre os dois: “Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente. Só preciso que me dê uma luz! Abs!”

Vorcaro respondeu com uma foto de visualização única. Flávio encerrou: “Amém!”

No dia seguinte, 17 de novembro de 2025, Vorcaro foi preso pela Polícia Federal.

A política, às vezes, produz labirintos. O de Flávio Bolsonaro tem uma característica particularmente incômoda: quanto mais ele tenta explicar que esteve apenas na porta, mais os documentos indicam que entrou na sala, sentou-se à mesa e participou da negociação.

Enquanto a PF, a PGR e a Justiça não concluírem as investigações, ninguém pode transformar suspeita em sentença.

No caso Banco Master, o filme Dark Horse talvez seja apenas um filme. O que as autoridades tentam descobrir é se, por trás da tela, havia outro roteiro.

Trambiqueiro contumaz, as investigações demonstram que Vorcaro “comprou” os irmãos Bolsonaro, juízes do STF e delegados da PF. E deu o calote em bancos e instituições de serviço público.

Dia 25 de outubro evite retrocesso em nossa democracia! Vote Lula! Vote 13!

Frei Betto é escritor, autor de “Anatomia do Poder” (Vozes), entre outros livros.