Em um mundo marcado por crises simultâneas — ambientais, econômicas, humanitárias e políticas — conceitos antes relegados ao campo das ideias abstratas ganham nova urgência e atualidade. Internacionalismo, utopia e solidariedade não são apenas palavras evocativas de um passado militante ou de projetos idealistas. São, hoje, propostas concretas para repensar o presente e moldar um futuro mais justo e sustentável.
O internacionalismo, historicamente vinculado a movimentos operários e lutas anticoloniais, reaparece como resposta à fragmentação e ao isolacionismo que crescem no século XXI. A pandemia de Covid-19, por exemplo, escancarou a interdependência entre os povos e a falência de modelos nacionalistas para enfrentar desafios globais. Nenhum país saiu ileso. A solidariedade entre nações, a troca de insumos, vacinas, informações e, principalmente, experiências, tornou-se necessidade vital.
Nesse contexto, o internacionalismo não deve ser confundido com globalização econômica. De fato, globocolonização. Enquanto esta visa integrar mercados sob a lógica do lucro e da competitividade, o internacionalismo propõe uma aliança entre povos, não entre capitais. É uma ética da cooperação, não da competição. A defesa dos direitos humanos, a luta por justiça climática e o apoio mútuo entre movimentos sociais são expressões contemporâneas desse ideal.
No entanto, para que o internacionalismo floresça precisa estar enraizado em uma visão utópica. Utopia, longe de ser uma fantasia irrealizável, funciona como horizonte mobilizador. É o que inspira movimentos e pessoas a acreditar que outras formas de organização social são possíveis. Utopia é motor da esperança, mas também bússola da ação política. É, em muitos sentidos, uma resposta ao ceticismo que impera em tempos de cinismo e desilusão. Dizer que “não há alternativa”, como pregam os neoliberais desde os anos 1980, é um projeto ideológico de imobilização. A utopia, ao contrário, afirma que há, sim, alternativas — e elas nascem da imaginação coletiva e da coragem para desafiar o status quo.
A solidariedade, por sua vez, é o elo que costura o internacionalismo e a utopia. Não se trata de caridade, mas de reconhecimento mútuo. É a percepção de que as dores do outro são também nossas, que a liberdade do outro condiciona a nossa. Em um mundo onde fronteiras são erguidas para pessoas e derrubadas para mercadorias, praticar a solidariedade é um gesto radical.
Exemplos concretos não faltam. O acolhimento de refugiados por redes voluntárias na Europa e na América Latina, o envio de médicos cubanos a países em crise sanitária, as campanhas transnacionais por justiça climática e os movimentos feministas e antirracistas que se articulam em escala planetária são provas de que a solidariedade internacional não apenas sobrevive, mas se reinventa.
Mas há obstáculos. O crescimento da extrema direita, do negacionismo e das fake news contribui para a desconfiança e o medo, sentimentos que corroem a empatia e alimentam o individualismo. Contra isso é preciso construir narrativas de pertencimento comum, de humanidade compartilhada. Isso exige educação, diálogo intercultural e fortalecimento das instituições democráticas — locais, nacionais e internacionais.
A tarefa é ambiciosa, mas necessária. Reafirmar o internacionalismo como prática política, cultivar a utopia como horizonte e exercer a solidariedade como valor cotidiano são atos de resistência e de criação. Não são antídotos mágicos para os problemas do mundo, mas ferramentas para enfrentá-los com dignidade e propósito.
Em um tempo onde impera o imediatismo, é revolucionário pensar a longo prazo. E mais revolucionário ainda é acreditar que esse futuro pode ser construído em comum. Afinal, como escreveu Eduardo Galeano, “a utopia está no horizonte. Sei muito bem que nunca a alcançarei. Mas ela serve para que eu não deixe de caminhar.”
Frei Betto é escritor, autor de “Fidel e a Religião”, entre outros livros.
