O mundo acaba de presenciar um ato vergonhoso por parte dos chefes de Estado de sete nações influentes na política internacional, recentemente reunidos na França, o G7. Para não desagradar Donald Trump, um ecocida assumido, a declaração final omitiu qualquer referência à proteção ambiental.
Em junho de 2015, o papa Francisco alertava, em sua encíclica “Laudato Sí”, uma possível ruptura irreversível nos sistemas naturais do planeta ao reforçar uma mensagem que se tornou marca de seu pontificado: os pobres são os que mais sofrem com a crise ambiental. Advertiu que a degradação climática não é uma abstração debatida apenas em conferências internacionais, mas uma realidade concreta, que se manifesta de forma brutal na vida daqueles que têm menos recursos para enfrentar choques climáticos cada vez mais frequentes.
A crise ecológica se tornou uma “crise humana”, em que impactos como secas prolongadas, enchentes, ondas de calor e perda de biodiversidade atingem de maneira desproporcional comunidades marginalizadas. São grupos que vivem em áreas vulneráveis, com infraestrutura precária, dependem de atividades econômicas sensíveis ao clima e possuem pouca capacidade de adaptação. Na avaliação de Francisco, essa assimetria expõe não apenas um problema ambiental, mas uma profunda injustiça social.
Tais advertências surgem em um cenário de crescente frustração com as Conferências dos Parceiros da ONU sobre Mudanças Climáticas (COPs). Embora concebidas como espaço para negociações globais capazes de conter o aquecimento do planeta, as conferências têm produzido compromissos considerados insuficientes para mudar a trajetória atual, como vimos na COP30, realizada em Belém (PR), em 2025. O resultado é um acúmulo de promessas formais que raramente se traduzem em ações concretas. Essa contradição coloca em risco não apenas metas climáticas, mas milhões de vidas.
Especialistas afirmam que, apesar de avanços pontuais, as COPs falham em três pontos centrais. Primeiro, a lentidão – acordos são anunciados com longos prazos de implementação, enquanto eventos extremos já pressionam populações vulneráveis. Segundo, a falta de vinculação legal, pois muitas metas dependem da boa vontade dos governos, que frequentemente priorizam agendas econômicas de curto prazo. Terceiro, o financiamento insuficiente para adaptação climática, especialmente em países empobrecidos. Esses fatores, somados, mantêm comunidades inteiras expostas a riscos permanentes, perpetuando um ciclo de perdas e agravamento das desigualdades.
Deslocamentos forçados por fenômenos climáticos já superam, em algumas regiões, o total de refugiados por conflitos armados. Agricultores familiares veem safras inteiras desaparecerem por falta de chuva ou excesso de calor, enquanto moradores de periferias urbanas convivem com enchentes recorrentes e infraestrutura frágil. Portanto, não se trata apenas de responder a emergências, mas de repensar o modelo de desenvolvimento que estimula exploração intensiva de recursos e amplia desigualdades.
É preciso estender o debate climático do campo estritamente técnico para o terreno ético. A ideia de que proteger o planeta é inseparável da defesa da dignidade humana. Não haverá transição ecológica justa se os custos forem repassados justamente a quem menos contribuiu para a degradação ambiental. Ainda que a maior parte das emissões históricas de gases de efeito estufa sejam produzidas por países ricos, os impactos recaem de forma mais intensa sobre regiões que pouco se beneficiam do progresso industrial e tecnológico.
As futuras COPs devem abandonar a lógica das negociações minimalistas e adotar compromissos claros, decisivos e verificáveis, que incluam responsabilidade diferenciada entre países e garantam apoio efetivo às nações mais pobres.
Como disse Francisco, ainda é possível reverter parte dos danos e construir um modelo de desenvolvimento sustentável e inclusivo. Porém, alertou: o tempo é curto, e “os mais frágeis não podem continuar pagando a conta”.
Em um mundo que se aquece rapidamente, os alertas dos ecologistas soam como alarmes e funcionam como chamado urgente para ação. Não se trata apenas de salvar o clima, mas sobretudo de proteger vidas. Não devemos mais dissociar direitos humanos e direitos na natureza. Nós, seres humanos, somos a natureza em sua expressão inteligente.
Frei Betto é escritor, autor do romance sobre a Amazônia “Tom Vermelho do Verde” (Rocco), entre outros livros..
