Jair Bolsonaro governou o Brasil durante quatro anos (2019-2022). Quatro anos bastaram para deixar um legado que não pode ser apagado por propaganda eleitoral nem conveniente amnésia que costuma visitar políticos e eleitores em ano de eleição. Foram anos de conflitos com as instituições, ataques às urnas eletrônicas, agressões à imprensa, desprezo pela ciência, devastação ambiental e uma política social marcada por recuos. A pergunta, agora, é inevitável: com seu filho, Flávio Bolsonaro, seria diferente?

Veio a Covid-19. O presidente que deveria unir o país diante de uma tragédia mundial preferiu minimizar a doença, atacar medidas de proteção, desacreditar vacinas e promover medicamentos sem eficácia comprovada. O Brasil ultrapassou 700 mil mortes. Setecentas mil vidas não são estatísticas: são pais, mães, filhos, irmãos, avós, amigos. São cadeiras vazias à mesa do almoço de domingo. São abraços que não aconteceram. Com seu filho, Flávio Bolsonaro, será diferente?

A Comissão Parlamentar de Inquérito da Covid, no Senado, investigou a atuação do governo e apontou uma série de condutas que considerou graves, e recomendou o indiciamento de Jair Bolsonaro e de outras pessoas. Não foi uma invenção da oposição nem uma manchete de jornal. Foi o resultado de meses de investigação parlamentar, depoimentos, documentos e contratos. Mesmo assim, Jair Bolsonaro jamais reconheceu responsabilidade política pela condução da pandemia. Com seu filho, Flávio Bolsonaro, será diferente?

Enquanto o mundo corria atrás das vacinas, o governo brasileiro colecionava controvérsias. Enquanto cientistas explicavam como reduzir a transmissão do vírus, o presidente aparecia em aglomerações e ironizava o perigo. Enquanto famílias choravam seus mortos, o negacionismo era transformado em bandeira política. A ciência, que deveria ser bússola, virou adversária. Com seu filho, Flávio Bolsonaro, será diferente?

E não foi apenas a pandemia. Na Amazônia, o desmatamento disparou. Os números do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais registraram taxas elevadas durante o governo Bolsonaro. A floresta, que o planeta inteiro considera patrimônio ambiental estratégico, passou a ser tratada por setores do governo como entrave à expansão econômica. Para madeireiros ilegais, garimpeiros e grileiros, a mensagem era clara: avancem. Com seu filho, Flávio Bolsonaro, será diferente?

Os povos indígenas também pagaram uma conta dolorosa. Enquanto garimpo ilegal, invasões e doenças avançavam sobre territórios protegidos, a política oficial frequentemente tratava a proteção indígena como obstáculo ao desenvolvimento. O drama Yanomami tornou-se símbolo de uma tragédia que não nasceu de um dia para outro. A pergunta é inevitável: quem pretende governar o Brasil, segundo o programa bolsonarista, aprendeu alguma coisa com aquela trágica realidade? Com seu filho, Flávio Bolsonaro, será diferente?

Na política econômica e social, o governo Bolsonaro terminou com inflação, endividamento, pobreza e fome ainda presentes no cotidiano de milhões. Bolsonaro terminou seu mandato desmontando o Bolsa Família para substituí-lo pelo Auxílio Brasil, em uma operação cercada de interesses eleitorais. Quando a fome vira instrumento de marketing político, alguma coisa está profundamente errada. Com seu filho, Flávio Bolsonaro, será diferente?

Surgiu o orçamento secreto. Bilhões de reais em emendas de relator foram distribuídos sem a transparência que deveria acompanhar o dinheiro público. O Supremo Tribunal Federal considerou o mecanismo incompatível com os princípios constitucionais de transparência e publicidade. Democracia não é apenas apertar uma tecla na urna a cada quatro anos. É também saber para onde vai o dinheiro dos impostos. Com seu filho, Flávio Bolsonaro, será diferente?

O capítulo mais perigoso foi a relação de Bolsonaro com a democracia. Durante meses, o presidente questionou as urnas eletrônicas sem apresentar provas capazes de sustentar suas suspeitas. Insinuou fraude. Convocou apoiadores. Criou um ambiente de desconfiança. Depois da derrota eleitoral, recusou-se a reconhecer explicitamente o resultado e permaneceu em silêncio diante de manifestações que pediam ruptura institucional. Apoiou os golpistas, assim como havia elogiado os torturadores do período militar. Com seu filho, Flávio Bolsonaro, será diferente?

O resultado daquela atmosfera todos conhecemos: 8 de janeiro de 2023. Milhares de pessoas invadiram e depredaram as sedes dos Três Poderes, em uma tentativa de provocar uma ruptura institucional. A democracia brasileira resistiu. As instituições reagiram. A sociedade não permitiu que a aventura golpista triunfasse. Mas a lição permanece: democracia não combina com político que perde a eleição e tenta convencer seus seguidores de que a eleição foi roubada. Com seu filho, Flávio Bolsonaro, será diferente?

Flávio Bolsonaro tem todo o direito de construir sua própria trajetória. Ser filho de Jair Bolsonaro não o condena a repetir o pai. Mas também não o absolve de explicar que herança política pretende carregar. Se deseja apresentar-se como continuidade, deve explicar por que considera positivo aquilo que foi feito. Se deseja apresentar-se como mudança, precisa dizer claramente o que fará de diferente.

Não basta dizer “sou Flávio, não sou Jair”. É preciso responder: será diferente diante de uma pandemia? Será diferente diante da ciência? Será diferente diante do SUS? Será diferente diante dos pobres? Será diferente diante da Amazônia? Será diferente diante dos indígenas? Será diferente diante da imprensa? Será diferente diante do Supremo Tribunal Federal? Será diferente diante das urnas eletrônicas?

Há uma pergunta ainda mais simples. Se amanhã ocorrer uma nova emergência sanitária, Flávio confiará nos médicos e cientistas ou repetirá o negacionismo do pai? Se a Amazônia estiver novamente sob ameaça, protegerá a floresta ou priorizará os interesses do agronegócio predatório, do garimpo e da grilagem? Se perder uma eleição, reconhecerá imediatamente o resultado ou procurará uma desculpa para desacreditar as urnas?

A política não é uma herança familiar como uma casa, uma fazenda ou uma conta bancária. Cada candidato responde pelo que pensa, pelo que promete e pelo que faz. Mas quem pede ao eleitor o direito de governar precisa aceitar também o direito do eleitor de perguntar. E, diante do legado de Jair Bolsonaro, essa pergunta não pode ser evitada: Com Flávio Bolsonaro será diferente?

O Brasil já experimentou o original. Não precisa comprar a continuação sem antes ler a bula. Já conheceu o negacionismo, a guerra contra a ciência, o conflito permanente com as instituições, o ataque às urnas, a devastação ambiental e a política transformada em espetáculo. O eleitor tem o direito de saber se está diante de uma mudança real ou apenas de uma nova embalagem para o mesmo produto.

A resposta não deve ser dada pelo marketing eleitoral. Deve ser dada pelo programa de governo, pela história política, pelas alianças e, sobretudo, pelos compromissos assumidos diante do povo brasileiro. Afinal, quatro anos de governo não são uma brincadeira de família. São a vida de mais de 200 milhões de brasileiros.

Eis a pergunta que a eleição coloca diante de cada eleitor: queremos repetir uma experiência que deixou mais de 700 mil mortos pela Covid-19, aprofundou conflitos institucionais e assistiu ao avanço da devastação ambiental? Ou queremos outro caminho? Flávio Bolsonaro pode responder como quiser. Mas o eleitor também pode responder com seu voto. E antes de apertar a tecla, talvez seja prudente perguntar uma última vez: com Flávio Bolsonaro, será diferente?

Dia 25 de outubro vote na democracia. Vote Lula! Vote 13!

Frei Betto é escritor, autor do romance “O Voo da Locomotiva” (Rocco), entre outros livros.