Em um cenário político onde a incerteza parece ser a única certeza, o papel dos eleitores indecisos assume uma relevância sem precedentes. A proximidade de um ato eleitoral decisivo como as eleições presidenciais, coloca uma responsabilidade acrescida sobre aqueles que ainda não fixaram a sua escolha. A decisão desses cidadãos não é apenas um exercício individual de preferência, mas um ato de profunda consequência coletiva para a saúde e a própria sobrevivência da democracia.

Em Portugal, a elevada taxa de indecisos, que em eleições recentes se tem mantido em torno dos 20%, demonstra que o desfecho de qualquer escrutínio está longe de ser uma conclusão precipitada.  Sua mobilização será, muito provavelmente, o fator decisivo.

A abstenção, muitas vezes vista como um protesto silencioso ou um gesto de neutralidade, está longe de ser inocente. Como tem sido amplamente sublinhado, não é um gesto neutro; é uma ausência que nunca decide nada e, na prática, entrega a outros o poder de escolher. Quando os eleitores, especialmente os moderados e os que se encontram indecisos, se demitem de participar, o espaço político é ocupado por minorias mais organizadas, barulhentas e fortemente hierarquizadas, que acabam por impor a vontade sobre aquela maioria que se mostra cansada ou desiludida. Este fenômeno não só distorce a representação, como amplifica os extremos e favorece projetos políticos que, muitas vezes, não respeitam as regras e os limites do jogo democrático.

A legitimidade dos órgãos de soberania, particularmente em um sistema uninominal como a eleição presidencial, depende diretamente da participação popular. Um presidente eleito com uma taxa de abstenção superior a 40% ou 50% verá a sua legitimidade democrática significativamente fragilizada, e governará “ferido na asa”. A abstenção, ao retirar vozes do processo, não corrige o sistema; torna-o mais pobre e menos representativo da vontade geral da nação, e assim enfraquece o contrato social que sustenta a vida em comunidade.

O voto dos indecisos é, por isso, um escudo contra as derivas autoritárias e o discurso do ódio. Em um tempo em que cresce a desinformação e o populismo fácil, cada voto depositado nas urnas é um “basta” à arrogância dos que se julgam donos do povo e um “sim” à ideia de que nenhum poder está acima da lei. A escolha, no domingo, é dupla: escolher um candidato é, acima de tudo, decidir se queremos continuar a viver em democracia plena. Não votar é abdicar de ambas as decisões.

A democracia não pede heroísmos, pede apenas presença. A dúvida e a desilusão são sentimentos legítimos, mas a sua superação é um ato de responsabilidade cívica. O momento de dizer “sim” ou “não” é o dia do voto. É aí que se decide o futuro. Que os indecisos escolham, com consciência, o caminho da preservação democrática.

No próximo domingo, dia 25 de outubro, vote na democracia. Vote Lula! Vote 13!

Frei Betto é escritor, autor de “Anatomia do Poder” (Vozes), entre outros livros.