Não é possível escrever um relato histórico ou bíblico sobre como Jesus praticava a democracia, pois ele não instituiu nenhum sistema político democrático no sentido moderno do termo (governo do povo por meio de representantes eleitos e soberania popular). Ele fundou um movimento cuja atuação era deliberada em assembleias, termo que, em grego, significa “igreja”. Os Evangelhos apresentam Jesus como um mestre religioso com forte incidência política. Não realizou eleições, nem incentivou votações para decisões comunitárias.

As práticas de Jesus Cristo apresentam um modelo de convivência e liderança que ressoa profundamente com os ideais democráticos modernos. Embora não tenha atuado em um sistema político democrático formal, pois vivia em uma monarquia, seus ensinamentos e ações lançaram as bases para uma sociedade mais justa, igualitária e participativa.

Seus ensinamentos e práticas registrados nos Evangelhos ecoam valores fundamentais da cultura democrática: participação, igualdade, valorização dos marginalizados e prestação de contas diante da comunidade.

Jesus subverteu radicalmente os modelos de poder de sua época. Em vez de “dominarem sobre os outros”, ensinou que “quem quiser tornar-se grande entre vocês deverá ser servo” (Marcos 10:43). Seu ato de lavar os pés dos discípulos e a afirmação de que veio “para servir, não para ser servido” (Mateus 20:28) são pilares dessa prática. Isso estabelece uma liderança baseada em humildade e serviço, não em coerção ou privilégio, similar à prestação de contas esperada em uma democracia.

Jesus envolvia seus discípulos e a multidão nas decisões e discussões. Em Lucas 6:12-13, antes de escolher os doze apóstolos, passou a noite em oração — um gesto de discernimento compartilhado, não autoritário. Mas o exemplo mais claro de consulta está em João 6:5-7, quando pergunta a Filipe: “Onde compraremos pão para eles comerem?”. Mesmo sabendo o que faria, Jesus abriu espaço para a opinião alheia. E considerou a fome do povo uma grave demanda a ser resolvida de imediato.

Na democracia, todos têm igual valor perante a lei. Nos Evangelhos, Jesus tratava mulheres, crianças, doentes, pobres e estrangeiros como sujeitos de dignidade. Em Mateus 20:25-28, criticou os governantes que “dominam” com o líder-servo: “Quem quiser tornar-se grande entre vocês, que seja servo”. Isso subverte hierarquias e aponta para relação horizontal.

Jesus praticou a “comunhão de mesa inclusiva” ao quebrar barreiras sociais e étnicas e se relacionar com pecadores, cobradores de impostos e samaritanos, grupos marginalizados na sua sociedade. Sua famosa parábola do Bom Samaritano (Lucas 10:25-37) é um chamado à compaixão e à superação de preconceitos, expandindo a definição de “próximo” a todos, sem distinção. Esta prática defende a dignidade de cada ser humano e a construção de uma comunidade sem exclusões, princípio fundamental para a cidadania plena.

Jesus não impôs sua palavra pela força; ele dialogava. Em João 8:3-11, diante da mulher adúltera, escreveu no chão e desafiou: “Quem dentre vocês não tiver pecado, atire a primeira pedra”. A decisão final emergiu da consciência coletiva. Os acusadores foram embora um a um. Houve ali um princípio de deliberação comunitária.

Sua afirmação de que “não disse nada em segredo” (João 18:20) demonstra um compromisso com a transparência e a prestação de contas. Jesus não operava às escondidas; expunha suas ideias ao escrutínio público, prática que fortalece a confiança e a participação populares.

Jesus delegou poderes aos discípulos (Mateus 10:1, 8) e os chamou de “amigos”, não de servos (João 15:15). Em Mateus 18:15-17, instituiu um processo de reconciliação que envolveu os discípulos (“diga à comunidade”), um esboço de resolução coletiva de conflitos, algo caro às práticas democráticas.

A democracia moderna incorpora, em princípio, minorias e vulneráveis. Jesus, em Lucas 4:18-19 (citando Isaías), definiu sua missão como “anunciar boas notícias aos pobres, liberdade aos cativos e pôr em liberdade os oprimidos”. Com frequência perguntava a cegos, pessoas acometidas de hanseníase e estrangeiros o que queriam (Marcos 10:51: “Que quer que eu lhe faça?”), devolvendo-lhes protagonismo e voz.

Quando tentaram fazê-lo rei (João 6:15), Jesus se retirou, recusou a possibilidade de dominar. Não buscou o poder, mas uma comunidade de discípulos baseada no amor, no serviço e na decisão livre — um governo sem coerção.

Portanto, Jesus não foi um democrata no sentido moderno (não houve sufrágio universal, parlamento ou constituição). Contudo, práticas evangélicas como escuta ativa, horizontalidade, valorização dos excluídos, recusa da opressão e do poder como domínio, e deliberação em grupo oferecem inspiração ética para quem deseja construir sociedades mais participativas e justas.

Os Evangelhos não são manuais de ciência política, mas neles se podem ser encontrados um espírito e uma prática democráticos anteriores às democracias.

Na eleição do próximo mês de outubro é importante votar em candidatos cujas propostas e atuação são condizentes com o exemplo e os ideais de Jesus.

Frei Betto é escritor, autor da tetratologia sobre Jesus editada pela Vozes (Jesus Militante, Jesus Rebelde, Jesus Revolucionário e Jesus Amoroso), entre outros livros.