Do alto de sua arrogância, Trump decidiu ofender o Papa Leão XIV por criticar seu belicismo insano. Irritado, o aprendiz de imperador declarou que Prevost só se tornou papa graças a ele e, portanto, deveria ter uma atitude de gratidão. Leia-se: submissão.

Ora, conflitos entre papas e chefes de Estado atravessam séculos de história e revelam uma tensão constante entre autoridade espiritual e poder político. Desde a Idade Média, essas disputas moldaram fronteiras, influenciaram guerras e redefiniram o papel da religião na esfera pública.

Um dos episódios mais emblemáticos ocorreu durante a chamada Querela das Investiduras, no século XI. O Papa Gregório VII entrou em choque com Henrique IV, imperador romano-germânico, rei da Itália e duque da Baviera. A polêmica girava em torno de quem tinha autoridade para nomear bispos: o papa ou o imperador.

A disputa culminou na excomunhão de Henrique IV. Em 1077, foi obrigado a submeter-se à humilhação imposta pelo papa: às portas do castelo de Canossa, no norte da Itália, o imperador aguardou três dias na neve, vestindo andrajos, para pedir perdão. O evento simboliza a supremacia papal sobre o poder secular medieval.

Com o fortalecimento dos Estados nacionais, novos conflitos emergiram. Um exemplo marcante envolveu o Papa Bonifácio VIII e o rei Filipe IV da França. Bonifácio defendia a supremacia da Igreja sobre os reis, expressa na bula Unam Sanctam (1302). Filipe reagiu com força e mandou prender o pontífice.

Essa agressão marcou o enfraquecimento do poder papal e abriu caminho para o período conhecido como “Cativeiro de Avignon”, quando os papas ficaram sob forte influência francesa.

No século XVI, com a Reforma Protestante, os atritos atingiram outro nível. O rei Henrique VIII, da Inglaterra, rompeu com o Papa Clemente VII por ter negado a anulação de seu casamento para contrair novo matrimônio. O resultado foi a criação da Igreja Anglicana e a separação de Londres e Roma.

Nos séculos XIX e XX, os embates passaram a ter acentuado caráter ideológico. O Papa Pio IX enfrentou o processo de unificação italiana, liderado pelo rei Vítor Emanuel II. A perda dos Estados Pontifícios – conjunto de territórios na Itália central, governados diretamente por papas de 756 a 1870 – marcou uma transformação decisiva: a figura do pontífice deixou de ser um governante territorial para assumir um papel mais espiritual.

O Papa Pio XI condenou o fascismo na encíclica Nonabbiamo bisogno (Não temos necessidade), de 1931, na qual criticava a “estatolatria” de Mussolini e defendia a dignidade humana. Em 1937, adotou uma corajosa postura ao condenar também o nazismo na encíclica Mit Brennender Sorge (Com Ardente Preocupação). As encíclicas costumam ter o título em latim, mas Pio XI fez questão de abrir exceção e intitulou-a em alemão, como havia feito com a que condenou o fascismo.

Apesar da Concordata com o governo alemão, assinada em 1933 para proteger a Igreja Católica, intensificada a repressão nazista, Pio XI passou a confrontar Hitler. Cópias da encíclica, lidas secretamente nas igrejas alemãs no Domingo de Ramos, foram posteriormente apreendidas pela Gestapo e os párocos, perseguidos. Para Pio XI, o nazismo era uma “ideologia racista” e Hitler um “louco de arrogância repulsiva”, epíteto que se aplica muito bem a Trump.

Stalin, que governou a União Soviética por três décadas (1922-1953), havia sido seminarista ortodoxo na adolescência. Ao abraçar o marxismo, tornou-se ateu e, ao assumir o poder, adotou políticas antirreligiosas. Na Segunda Grande Guerra, frente às críticas católicas ao comunismo, teria perguntado: “Quantas divisões tem o papa?” Como Trump, não se deu conta do poder espiritual e simbólico do homem que ocupa o trono de Pedro.

Durante a prisão dos frades dominicanos no Brasil, quando fomos acusados de “terrorismo” pela ditadura militar e condenados a quatro anos de cárcere (1969-1973), o Papa Paulo VI nos deu total apoio e nos remeteu, de presente, um rosário cujas contas são sementes de azeitonas do Horto das Oliveiras de Jerusalém. Várias vezes o pontífice criticou as violações dos direitos humanos no Brasil e respaldou a atitude profética de bispos que denunciaram o regime militar, como Dom Helder Câmara, Dom Paulo Evaristo Arns e Dom Pedro Casaldáliga.

O Papa João Paulo II teve relações complexas com regimes políticos, especialmente no contexto da Guerra Fria, ao se aliar às políticas anticomunistas de Reagan e Margareth Thatcher. Embora o pontífice polonês tenha se atritado com o governo sandinista da Nicarágua, estabeleceu excelentes relações com Fidel Castro ao visitar Cuba.

O Papa Francisco também teve divergências públicas com líderes políticos sobre temas como imigração, meio ambiente e desigualdade social. Vale lembrar que Francisco visitou Cuba duas vezes durante seu pontificado e mediou o restabelecimento de relações diplomáticas entre a ilha socialista e a Casa Branca.

Ao longo da história, os choques entre papas e chefes de Estado revelam uma disputa contínua por legitimidade e influência. Se antes envolviam excomunhões e guerras, hoje se manifestam em debates diplomáticos e éticos. Com frequência, o pontífice critica políticas nacionais em nome de valores humanitários.

Nos EUA, as declarações agressivas e desrespeitosas de Trump ao Papa Leão XIV provocaram duras críticas de líderes católicos, até mesmo de aliados de longa data do presidente. A disputa pública sem precedentes levantou preocupações sobre seu impacto no apoio de eleitores católicos ao Partido Republicano antes das eleições de meio de mandato, em novembro.

A hierarquia católica estadunidense emitiu enérgica condenação às ofensas de Trump. O arcebispo Paul S. Coakley, presidente da Conferência dos Bispos dos EUA, disse ter ficado “desanimado” com as “palavras depreciativas” do presidente, e enfatizou que “o Papa Leão não é seu rival, nem um político”. O cardeal Tobin, de Newark, acusou o presidente de demonstrar “preocupante falta de respeito pela fé de milhões de pessoas”.

As críticas não se limitaram a líderes religiosos progressistas. O bispo Robert Barron, figura conservadora de destaque e membro da Comissão de Liberdade Religiosa do próprio Trump, classificou os comentários do presidente de “completamente inadequados e desrespeitosos” e declarou: “Acho que o presidente deve um pedido de desculpas ao papa”.

Os democratas foram rápidos em condenar o presidente. O líder da minoria na Câmara, Hakeem Jeffries, afirmou: “Pessoas de fé nunca adorarão um aspirante a rei”. E o senador Mark Kelly, católico, considerou o ataque “abominável”.

Talvez o mais preocupante para Trump seja a divisão da Coalizão MAGA. A ex-congressista Marjorie Taylor Greene, sua fervorosa apoiadora disse desprezar “completamente” os comentários do presidente: “estou orando contra eles”. A comentarista conservadora Riley Gaines também criticou uma imagem gerada por IA postada por Trump que o retratava como uma figura semelhante a Cristo curando um enfermo.

Analistas políticos expressaram preocupação de que, nas eleições de novembro, a disputa possa tirar votos de eleitores católicos dos republicanos em estados-chave como Michigan, Ohio, Wisconsin e Arizona. Um cofundador do grupo conservador Voto Católico, que apoiou Trump na última eleição, qualificou os comentários do presidente de “erro ridículo”.

O vice-presidente JD Vance, convertido recentemente ao catolicismo, defendeu o presidente na Fox News: “Em alguns casos, seria melhor para o Vaticano se ater a questões de moralidade… e deixar o presidente dos Estados Unidos se ater a ditar a política pública americana”. Já o Secretário de Estado Marco Rubio, outro católico de alto escalão na administração, preferiu não comentar publicamente as críticas de Trump ao papa.

Frei Betto é escritor, autor da tetratologia sobre Jesus editada pela Vozes (Jesus Militante, Jesus Rebelde, Jesus Revolucionário e Jesus Amoroso), entre outros livros.