Suponhamos que, no púlpito da igreja, na pregação de domingo, o padre ou pastor afirme que “faz X anos que fulano é presidente do Brasil, beltrano governador de São Paulo, sicrano governador do Rio de Janeiro…” Com certeza alguns dirão que, ao contextualizar politicamente a mensagem religiosa, o pregador faz “politicagem”.

Vejamos o que diz o Evangelho de Lucas: “Fazia quinze anos que Tibério era imperador de Roma. Pôncio Pilatos governava a Judeia; Herodes, a Galileia; seu irmão Filipe, a Itureia e a Traconítide; e Lisânias, a Abilene. Anás e Caifás eram sumos sacerdotes. Foi nesse tempo que Deus enviou a Sua palavra a João, filho de Zacarias, no deserto.”[1]

Qual a diferença? Nenhuma. Lucas inicia seu relato evangélico ao contextualizar politicamente a atuação de Jesus. Aliás, todos nós, cristãos, somos discípulos de um prisioneiro político. Jesus não morreu de pneumonia na cama nem de acidente de bigas romanas em uma esquina de Jerusalém. Como tantos militantes políticos, foi perseguido, preso, torturado, julgado por dois poderes políticos, o judaico e o romano, e condenado à pena de morte do Império Romano, a crucificação.

Como afirmar que Jesus nada tinha a ver com política, sobretudo em uma conjuntura na qual não havia separação entre religião e política? Na Palestina do século I ocupada pelos romanos, quem detinha o poder religioso controlava também o poder político e quem detinha o poder religioso tinha poder político.

“Não há nada mais político do que dizer que a religião nada tem a ver com a política”, dizia o bispo sul-africano Desmond Tutu, prêmio Nobel da Paz.[2]

A figura de Jesus Cristo é encarada com frequência sob uma ótica exclusivamente religiosa e espiritual. No entanto, uma análise histórica e contextual do primeiro século da nossa era revela uma dimensão impossível de ser negada de sua vida e morte: a política. A condenação de Jesus à crucificação, a pena de morte mais infame do Império Romano, não foi mero ato de rejeição religiosa, mas um evento profundamente enraizado na conjuntura política da Judeia ocupada pelos romanos. Compreender este cenário é fundamental para apreender a mensagem do Evangelho em sua integralidade e reconhecer que a proclamação do “Reino de Deus” era, em si, um ato de contraposição ao “Reino de César”.

Jesus, uma ameaça

Para entender por que Jesus foi visto como uma ameaça, é crucial retroceder e analisar o ambiente político e social da Palestina no século I. A região era uma província dominada pelo Império Romano, que exercia seu poder através de uma combinação de força militar, cobrança de pesados impostos e alianças com as elites locais. Essa dominação não era pacífica; era mantida pela chamada Pax Romana, uma “paz de cemitério, conseguida por meio de violência, de imposição da dominação”, onde qualquer foco de resistência era brutalmente esmagado para intimidar futuros rebeldes.

Pesquisas de historiadores indicam que a região já era convulsionada há muito tempo por crises políticas e opressão. Para a população mais pobre, a realidade era de desgaste e sofrimento, enquanto as elites judaicas, como os saduceus, faziam acordos políticos e econômicos com os dominadores para manter seus privilégios. Este cenário de opressão alimentava um forte sentimento messiânico enraizado na tradição judaica: a crença de que um enviado de Deus surgiria para libertar Israel da dominação estrangeira e restaurar o reino e a dignidade do povo judeu.

É neste ambiente de efervescência que Jesus iniciou sua missão ao formar uma comunidade militante. Ele não era uma figura isolada; a Palestina estava cheia de movimentos populares, rebeldes e profetas que anunciavam um novo tempo. Havia grupos radicais como os zelotes, que defendiam a revolta armada, e os sicários, que cometiam atos de terrorismo contra as autoridades.

A mensagem de Jesus era inerentemente política. Ao proclamar um novo Reino, desafiava a ordem estabelecida. Foi acusado de “perverter a nação”, incitar a não pagar tributos a César e, o mais grave, se declarar “Cristo, o Rei”. Em um território instável, a alegação de realeza, mesmo que espiritual, era vista como uma afronta direta à soberania de Roma.

A Condenação de Jesus

A condenação de Jesus foi um processo político-religioso, onde as acusações religiosas (blasfêmia) serviram como pretexto para uma acusação política que interessava a Roma (subversão). Os líderes religiosos, que viam Jesus como uma ameaça à autoridade deles, o apresentaram ao governador romano Pôncio Pilatos como um inimigo de César. A acusação era clara: Se ele se declarava rei dos judeus, poderia levar esse povo a um ato de resistência contra o Império Romano.

Para o Império, a crucificação não era apenas um método de execução, mas uma ferramenta de propaganda de terror. Era uma morte brutal, destinada a “apagar a memória” do condenado, pois o corpo era exposto para ser devorado por aves de rapina e animais selvagens, sem direito a um sepultamento digno. Além disso, não existiam processos jurídicos formais para esses “crimes políticos”; indivíduos considerados subversivos eram presos e imediatamente levados à morte para servir de exemplo. A narrativa bíblica de Jesus sendo colocado ao lado de Barrabás, um “bandido social” e revolucionário, reforça a imagem de um agitador político, líder de um “bando” que incomodava o poder estabelecido.

O Evangelho como Crítica Radical

Portanto, negar que Jesus foi um prisioneiro político é ignorar as evidências históricas de seu tempo. Ele foi condenado não por um crime moral, mas por representar uma ameaça à ordem política imperial e à aliança que as elites locais mantinham. Sua mensagem de justiça, amor e um Reino alternativo era, na prática, uma crítica radical a um sistema de exploração e opressão.

Essa perspectiva não diminui o significado teológico da crucificação; ao contrário, a enriquece. Demonstra que o Evangelho não é uma mensagem de escapismo espiritual, mas uma proclamação que se encarna nas realidades concretas da história humana. Jesus, ao ser executado pelo Estado, se solidarizou com todos os oprimidos e vítimas da injustiça ao longo dos séculos, fazendo da cruz o símbolo máximo do confronto entre o poder divino de amor e os poderes tirânicos deste mundo. O convite de Jesus a “dar a César o que é de César e a Deus o que é de Deus” não era um aval ao status quo, mas uma demarcação de que a lealdade última do ser humano pertence a Deus, um Deus cujo Reino subverte todas as lógicas de poder humano.

Assim, nos passos de Jesus, cabe a todos nós cristãos, que somos também cidadãos, nos engajar no processo político para criar uma sociedade de justiça e paz, sem opressores e oprimidos.

[1] Lucas 3,1-2.
[2] Ver minha tetralogia sobre os evangelhos: Jesus Militante (Marcos); Jesus Rebelde (Mateus); Jesus Revolucionário (Lucas); e Jesus Amoroso (João), editada pela Vozes.


Frei Betto é escritor, autor da tetralogia sobre os evangelhosJesus Militante (Marcos); Jesus Rebelde (Mateus); Jesus Revolucionário (Lucas); e Jesus Amoroso (João) -, editado pela Vozes, entre outros livros.